
"ninguém é dono da sorte
nem teleguia o destino
por mais que seja ladino
não ganha o jogo da morte"
esse verso li faz muito tempo, num cordel que contava a tão famosa chegada de lampião no inferno, umahistória que já teve várias versões e todas as que li provam o que é de costume saber - virgulino mete taca até no cão! o verso inicial ficou na cabeça, acho que pelo "teleguia", que mete a gente lá na cabeça do poeta e cria um certo ar sci-fi do mato, um lance meio totonho e os cabra.
o cordel tinha uma xilogravura na capa, mostrando lampião lutando com um capeta caricato, com pés de bode, chifre, rabo e tudo mais e eu pensei: bem que o luciano irrthum podia fazer um livro com lampião.
com virgulino não rolou, mas rolou com a morte, e a semelhança com o absurdo dos cordéis, que antes via mais no traço do cara, fica mais forte nesse "a comadre do zé", que a graffiti lançou este mês, dentro da coleção 100% quadrinhos.
zé é um cabra cheio de filhos que, para os rebentos, já convocou toda a cidade a padrinho. com a gravidez mais recente da esposa, se vê no dilema do filho pagão e é aqui que lhe aparece a comadre, de quem ninguém escapa... bem, quase ninguém.
nas 74 páginas do livro, luciano brinca com o a relação burlesca entre o zé e sua cumadre, e deixa a idéia clara de que a própria crença na morte (e a trama que dela vem) se sustenta em séculos e séculos de crendices e oralidades que trazem o absurdo prum espaço íntimo e natural. tomando figuras chaves dos cordéis e histórias do sertão como o médico do interior, o coronel e o matuto, zé é conduzido por um mundo onde pode até ser dono da sorte, mas a sorte é abalizada por todos os lados e só a transfusão para uma sociedade completamente nova talvez mude de fato o destino dos personagens.
o livro me lembrou o prazer de ler alguns quadrinhos antigos como os do flávio collin, mozart couto e coisas que saiam em revistas de terror pelo simples fato de que há um reconhecimento fantástico no trabalho do irrthum e uma sintonia narrativa com os cordéis, que o cara já mostrava em hqs antigas com "henrique e o pé de manga". o traço é impecável e a composição se vale bem das linhas grossas que precisam de respiro.
o livro só peca por ser curto, as teleguiagens no destino do zé poderiam ser maiores e com mais causos no gato e rato de zé e sua comadre.
ah, "tudo aconteceu num lugar onde a luz elétrica só chegou no ano passado..." é como o verso do folheto do lampião, não vai me sair da cabeça.

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