01. se houver um filme com monstro e outro sem monstro, o com monstro é melhor.
02. qualquer história que se conte sem naves espaciais e pistolas de raios, se conta melhor com elas.
Mas aí que fui ver dois filmes essa semana, Sweeney Todd e Cloverfield.
O primeiro não tem monstro, o segundo, sim.
Mas o primeiro já era uma merda antes deu ver o segundo.
02. qualquer história que se conte sem naves espaciais e pistolas de raios, se conta melhor com elas.
Mas aí que fui ver dois filmes essa semana, Sweeney Todd e Cloverfield.
O primeiro não tem monstro, o segundo, sim.
Mas o primeiro já era uma merda antes deu ver o segundo.

Vou dar como exemplo um outro filme de monstro, que era bem ruim, por sinal.
Reino de fogo. Uns dragões aparecem em Londres e acabam com a civilização. O homem volta pras cavernas e fica por lá tentando detonar os dragões e restabelecer seu modo de vida.
Numa cena, vemos uma turma de crianças no que parece ser uma escola improvisada na caverna. Há uma peça sendo apresentada e dois atores mal trapilhos travam uma luta de espadas.
As crianças têm os olhos atentos à cena e, quando um dos espadachins vence, tendo o derrotado aos seus pés, diz:
— Eu sou seu pai!
Bingo! Naves espaciais e pistolas de raios.
Reino de fogo é uma bela bosta, mas mostrar a tentativa de reerguer uma civilização tendo como parâmetros míticos e arquetípicos elementos retirados da cultura pop contemporânea foi uma sacada genial!
Dizem que a relevância da obra de arte se dá pela sua capacidade de sobreviver ao tempo. Eu acho que essa capacidade só opera de fato com a inserção da obra de arte de alguma forma no cotidiano (e isso é uma via de mão dupla que caras superfodões como o George Lucas sabem usar).
Além disso, há o sobrevalor da obra de arte que está pra além dela, que o digam os caras que tavam guardando as obras roubadas do masp mês passado.
E aí me aparece o Tim Burton com o filme do barbeiro maluco da rua Fleet. Eu já andava desconfiado desde o melamão “Peixe grande” (um filmeco de redenção) e do insípido (porém engraçadinho) “A noiva cadáver”.
O elenco é o mesmo, o figurino é o mesmo, só que agora eles cantam.
Conheço pouco de musicais, mas acho que depois de “Cantando na chuva”, se deveria pensar duas vezes antes de fazê-los (exceções pro Trey Parker e Matt Stone). Geralmente são filmes chatos onde as pessoas se redimem... e cantam.
Mas vai que a grife do Tim Burton (como acabou virando a grife do Neil Gaiman) me diz que o tal Todd é um clássico personagem inglês que inspirou várias obras e investigações e há um debate historiográfico sobre sua possível existência por volta dos 1800.
Bem, foda-se Sweeney Todd e aquelas bandas de heavy metal melódico que fazem músicas sobre gnomos ladrões de morangos pra adolescentes do interior do Ceará!
O problema com essas ressignificações é quando ela me parecem não ter mais nenhum espaço de reverberação. O filme foi puta elogiado, mas pra mim parece um produto tecnicamente muito bom feito pra ganhar prêmio, mas sem tempero algum. Previsível e chato!
Faz um tempo que acho os treilers o melhor produto da indústria cinematográfica. Eu teria curtido o treiller do barbeiro maluco, mas o filme num deu não.
E me aparece um cara que, aparentemente, concorda comigo, e faz o Cloverfield. Em poucas palavras, é a “Bruxa de Blair” com monstro gigante. Cloverfield, na minha opinião, tem a mesma relevância pro cinema que o “Walking dead” tem pros quadrinhos (tem algo sobre o WD aqui no puta).
Hoje reina a lógica da superexposição. Como disse um fulano, há muito mais espaço para expor que coisa pra ser exposta, sendo que, pensando na arte, a “coisa” existe antes mesmo de existir e os produtos (artistas) são publicizados em seus processos de produção e amadurecimento.
Reino de fogo. Uns dragões aparecem em Londres e acabam com a civilização. O homem volta pras cavernas e fica por lá tentando detonar os dragões e restabelecer seu modo de vida.
Numa cena, vemos uma turma de crianças no que parece ser uma escola improvisada na caverna. Há uma peça sendo apresentada e dois atores mal trapilhos travam uma luta de espadas.
As crianças têm os olhos atentos à cena e, quando um dos espadachins vence, tendo o derrotado aos seus pés, diz:
— Eu sou seu pai!
Bingo! Naves espaciais e pistolas de raios.
Reino de fogo é uma bela bosta, mas mostrar a tentativa de reerguer uma civilização tendo como parâmetros míticos e arquetípicos elementos retirados da cultura pop contemporânea foi uma sacada genial!
Dizem que a relevância da obra de arte se dá pela sua capacidade de sobreviver ao tempo. Eu acho que essa capacidade só opera de fato com a inserção da obra de arte de alguma forma no cotidiano (e isso é uma via de mão dupla que caras superfodões como o George Lucas sabem usar).
Além disso, há o sobrevalor da obra de arte que está pra além dela, que o digam os caras que tavam guardando as obras roubadas do masp mês passado.
E aí me aparece o Tim Burton com o filme do barbeiro maluco da rua Fleet. Eu já andava desconfiado desde o melamão “Peixe grande” (um filmeco de redenção) e do insípido (porém engraçadinho) “A noiva cadáver”.
O elenco é o mesmo, o figurino é o mesmo, só que agora eles cantam.
Conheço pouco de musicais, mas acho que depois de “Cantando na chuva”, se deveria pensar duas vezes antes de fazê-los (exceções pro Trey Parker e Matt Stone). Geralmente são filmes chatos onde as pessoas se redimem... e cantam.
Mas vai que a grife do Tim Burton (como acabou virando a grife do Neil Gaiman) me diz que o tal Todd é um clássico personagem inglês que inspirou várias obras e investigações e há um debate historiográfico sobre sua possível existência por volta dos 1800.
Bem, foda-se Sweeney Todd e aquelas bandas de heavy metal melódico que fazem músicas sobre gnomos ladrões de morangos pra adolescentes do interior do Ceará!
O problema com essas ressignificações é quando ela me parecem não ter mais nenhum espaço de reverberação. O filme foi puta elogiado, mas pra mim parece um produto tecnicamente muito bom feito pra ganhar prêmio, mas sem tempero algum. Previsível e chato!
Faz um tempo que acho os treilers o melhor produto da indústria cinematográfica. Eu teria curtido o treiller do barbeiro maluco, mas o filme num deu não.
E me aparece um cara que, aparentemente, concorda comigo, e faz o Cloverfield. Em poucas palavras, é a “Bruxa de Blair” com monstro gigante. Cloverfield, na minha opinião, tem a mesma relevância pro cinema que o “Walking dead” tem pros quadrinhos (tem algo sobre o WD aqui no puta).
Hoje reina a lógica da superexposição. Como disse um fulano, há muito mais espaço para expor que coisa pra ser exposta, sendo que, pensando na arte, a “coisa” existe antes mesmo de existir e os produtos (artistas) são publicizados em seus processos de produção e amadurecimento.
Não existe mais fita demo.
Eu tenho um blog.

Daí que a idéia do monstro gigante fodendo uma cidade é comum no cinema, sei lá, desde os anos 40 com Godzila até os monstros da semana com Changemans da vida.
A questão do Cloverfield passa, na prática, bem longe do monstro, como disse o JJ Abrams, idealizador do filme: “Eu queria algo que fosse simplesmente insano e intenso".
Num texto do Benjamim, um dia desses, li um lance que dizia que “o homem hoje não trabalha mais naquilo que não pode ser abreviado”, de forma que “insano” e “intenso” como definição conceitual de um filme cabem perfeitamente prum filme que convém.
A feitura do filme propõe uma experiência de videogame, onde a naturalidade da primeira pessoa (particularmente com o verbo morrer) constrói uma realidade intensa, na qual viver é uma ilha de edição em tempo real.
Cloverfield reduz a consciência ao limite visual. A necessidade de filmar (expor) é maior que a de sobreviver, e a experiência do registro é mais intensa que a experiência do ato registrado, ou, como diziam os personagens, numa correria:
_ por que você não pára de filmar isso?
_ as pessoas têm que saber o que aconteceu.
_ mas você pode contar.
_ contar não basta.
Em outra pequena cena, vemos um personagem que chega numa festa. A câmera-personagem fecha nele, mas é inevitável acompanhar o que acontece por uma outra câmera dentro do foco, esta do celular de um dos convidados.
Quando o monstro ataca a cidade e todos saem às ruas, a quantidade de pessoas filmando ou fotografando é tão grande quanto de pessoas fugindo.

A própria natureza do desastre ressoa a lógica contemporânea do superexposto.
O amigo do Gabriel, quando explodiram as torres gêmeas, anunciou a “terceira guerra mundial”. Naturalmente, um monstro gigante em Nova Iorque hoje em dia é antes de tudo um ato terrorista.
O monstro gigante novaiorquino, neste caso, tá muito mais próximo do que me remete à segunda guerra (o ideário do heroísmo maniqueísta) do que à vilania incorpórea. Lembrando que, enquanto Manhatam se fode, o resto do mundo continua na mesma.
A narrativa é antes sensorial que de enredo. Quem vai ou fica pouco importa, de onde vem o monstro, também.
O barbeiro descobre que era tudo falso e se redime no final.
A galera do Cloverfield teve “um dia lindo!”
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