quarta-feira, 28 de março de 2012

TRIPAS

Respire.
Puxe o máximo de ar que conseguir.
Esta história deve durar o quanto você conseguir prender a respiração, e daí só mais um pouquinho. Então escute o mais rápido que puder.

Um amigo meu, quando tinha treze anos, ouviu falar da “cravilhada” É quando um cara toma no rabo com um dildo. O que se diz é que se você estimular a glândula prostática direitinho dá pra ter um orgasmo explosivo sem usar as mãos. Naquela idade, esse amigo era um tanto maníaco sexual. Sempre fuçando um jeito mais legal de dar uma esporrada. Ele sai pra comprar uma cenoura e um pouco de vaselina. Pra realizar uma pequena pesquisa intima. Aí ele pensa em como vai parecer no caixa do supermercado, a cenoura solitária e a vaselina rolando na esteira em direção à senhora no caixa. Todos os clientes esperando na fila, só olhando. Todo mundo vendo a grande noite que ele planejou.
Então, esse amigo meu, ele compra leite e ovos e açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.
Como se ele fosse pra casa enfiar um bolo de cenoura no cu.
Em casa, ele molda a cenoura como uma faquinha. Ele a besunta com graxa e desce esfregando o rabo nela. E nada. Sem orgasmos. Nada acontece, só dói.
Então, esse garoto, a mãe dele grita que é hora do jantar. Ela diz pra ele descer, agora.
Ele tira a cenoura e esconde a peça suja e escorregadia no meio das roupas sujas embaixo da cama.
Depois da janta, ele vai atrás da cenoura e ela sumiu. Enquanto ele jantava, a mãe dele levou todas as roupas sujas pra lavanderia. Não tem jeito dela não ter achado a cenoura, cuidadosamente talhada com uma faca paring da cozinha dela.
Esse meu amigo, ele passa meses sob uma nuvem negra, esperando que os seus o confrontem. Mas nunca acontece. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível fica pendurada em cada jantar de natal, cada festa de aniversário. Cada caçada ao ovo de páscoa com os filhos dele, os netos dos filhos dele, aquela cenoura fantasma pairando sobre todos eles.
É algo chato demais pra se apontar.
As pessoas na França têm uma expressão: “O espírito da escada.” Em francês: Esprit de l'escalier. Ela fala daquele momento no qual você acha a resposta, mas já é tarde demais. Digamos que você esteja numa festa e alguém lhe insulta. Você tem que dizer alguma coisa. Então sob pressão, com todo mundo olhando, você acaba por dizer algo molengo. Mas é só você sair da festa...
Você começa a descer a escada e... mágica. Você acha a resposta perfeita, a que devia ter dado. O ponha-se-no-seu-lugar perfeito.
Esse é o espírito da escada.
O problema é que nem os franceses têm uma frase pras coisas estúpidas que você de fato diz sob pressão. Essas coisas estúpidas, desesperadas que você de fato diz ou faz.
Algumas atitudes são muito baixas até pra ter um nome. Muito baixas até pra se falar a respeito.
Parando pra ver, especialistas em psicologia infantil, terapeutas escolares dizem que do último pico de suicídio adolescente, a maioria eram jovens tentando engasgar enquanto levavam uma sova. Os pais os achariam, uma toalha enrolada no pescoço, a toalha amarrada na haste do guarda roupas, o filho morto. Esperma morto pra todo lado. Claro que os pais limparam. Botam umas calças no menino. Fazem parecer… melhor. Ao menos intencional. O tipo normal e triste de suicídio adolescente.
Outro amigo meu, um rapaz da escola, o irmão mais velho dele na marinha falou de como os caras do oriente médio batem punheta diferente da gente aqui. Esse irmão estava lotado em algum desses países com camelos onde o mercado público vende o que poderia ser um abridor de cartas chique. Cada uma destas ferramentas invocadas não passa de uma tala fina de bronze ou prata polida, talvez do tamanho da sua mão, com uma ponta grande em uma extremidade, seja uma grande bola de metal ou o tipo de empunhadura talhada refinada que você encontra numa espada. Esse irmão da marinha fala de como os caras na Arábia endurecem o pau e inserem a vareta no comprimento inteiro de suas picas. Eles batem uma com a vareta dentro e ela deixa a bronha muito melhor. Mais intensa.
Esse irmão mais velho que viaja pelo mundo, mandando frases em francês. Frases em russo. Dicas úteis de punheta.
Depois disso, o irmão menor, um dia ele não aparece na escola. Naquela noite, ele liga pra perguntar se eu posso pegar seu dever de casa nas próximas semanas. Porque ele está no hospital.
Ele tem que dividir um quarto com gente velha que vai fazer coisas nas tripas. Ele conta como eles têm que dividir a mesma televisão. Tudo de privacidade que ele tem é uma cortina. Seus pais não o visitam. Ao telefone, ele me conta como neste exato momento seus velhos poderiam matar seu irmão marinheiro.
Ao telefone, o garoto conta como, no dia anterior, ele só tava um pouco chapado. Em casa, em seu quarto, esparramado na cama. Ele acende uma vela e folheia umas velhas revistas pornô, se preparando pra bater uma. Isso é depois dele ouvir do seu irmão marinheiro. Aquela dica útil de como os árabes batem uma. O garoto olha em volta, procurando algo que possa servir. Uma esferográfica é grande demais. Um lápis é grande demais e áspero. Mas escorrendo pela lateral da vela tem uma fina a lisa crista de cera que pode dar certinho. Só com a ponta de um dedo, esse garoto arranca a longa crista de cera da vela. Ele enrola de leve entre as palmas das mãos. Longo e liso e fino.
Chapado e cheio de tesão, ele enfia, mais e mais fundo na uretra. Com uma boa parte da cera ainda pro lado de fora, ele começa a trabalhar.
Mesmo agora, ele diz que esses árabes são espertos pra cacete. Eles reinventaram completamente a bronha. Deitado de costas na cama, a coisa vai ficando tão boa, esse garoto não consegue acompanhar a cera, ele está a uma boa puxada de disparar seu jato quando a cera não tá mais pra fora.
A vara fina de cera deslizou pra dentro. Todinha. Assim tão fundo ele nem consegue sentir o bagulho destro do seu duto urinário.
Do andar de baixo, a mãe dele grita que é hora do jantar. Ela manda descer, agora. Esse garoto da cera e o garoto da cenoura são dois caras diferentes, mas todos nós meio que vivemos a mesma vida.
Já passa do jantar quando as tripas do garoto começam a doer. É cera e ele achou que ia acabar derretendo dentro dele e ele acabaria mijando tudo. Agora as costas doem. Os rins. Ele não consegue ficar ereto.
Esse garoto falando ao telefone de sua cama de hospital, ao fundo você consegue ouvir as sinetas, gente gritando. Game shows.
O raio-X mostra a verdade, algo longo e fino, dobrado dentro da bexiga dele. Esse V fino e longo dentro dele, coletando todos os minerais do mijo dele. Ficando maior e mais encrespado, revestido com cristais de cálcio, fica batendo, rasgando a pele fina da bexiga, impedindo a urina de sair. Os rins estão pra trás. O pouquinho que pinga do pau dele está avermelhado pelo sangue.
Esse garoto e seus pais, sua família inteira, olhando o raio-X negro com o médico e as enfermeiras ali paradas, o enorme V de cera branco brilhando pra todo mundo ver, ele tem que falar a verdade. O jeito como os árabes batem uma. O que o irmão mais velho escreveu da marinha.
Ao telefone, agora, ele começa a chorar.
Eles pagaram a operação na bexiga com as economias da faculdade dele. Um erro estúpido e agora ele nunca vai ser um advogado.
Enfiar coisas em você. Se enfiar nas coisas. Uma vela no seu pau ou sua cabeça numa cilada, a gente sabia que seria um problemão.
O que deixou encrencado, eu chamo de Mergulho das Pérolas. Em outras palavras, é bater umazinha debaixo d’água, sentado no fundo, lá no fundo da piscina dos meus pais. Num só fôlego, eu nadava até o fundo e tirava a meu calção de banho. Eu sentava lá por dois, três, quatro minutos.
Só de bater punheta eu tinha uma capacidade pulmonar gigantesca. Se eu tivesse a casa só pra mim, passava a tarde inteira nisso. Depois de finalmente esporar o meu bagulho, meu esperma, ele ficava lá em escarros leitosos, grandes e gordos.
Depois disso era mais mergulho, pra pegar tudo. Coletar tudo e limpar cada mão cheia com uma toalha. É por isso que era chamado de Mergulho das Pérolas. Mesmo com o cloro, eu me preocupava com a minha irmã. Ou, Deus do céu, a minha mãe.
Esse costumava ser meu pior medo no mundo inteiro: minha irmã, adolescente e virgem, pensando que só estava engordando, pra depois dar à luz a um bebê retardado de duas cabeças. As duas cabeças sendo a minha cara. Eu, o pai E o tio.
No final, nunca é o que te preocupa que acaba te pegando.
A melhor parte do Mergulho das Pérolas era o duto de entrada do filtro da piscina e a bomba de circulação. A melhor parte era ficar nu e sentar nele.
Como diriam os franceses: quem não gosta de lhe chupem o cu?
Ainda assim, em um minuto você é só um garoto batendo uma, e no minuto seguinte você nunca vai ser um advogado.
Um minuto, eu tô me aconchegando no fundo da piscina, e o céu está ondulado, azul claro filtrado nos 2,4 metros de água acima da minha cabeça. O mundo está em silêncio, exceto pelo batimento cardíaco nos meus ouvidos. Meu calção de banho de listrinhas amarelas está amarrado no meu pescoço, por segurança, pro caso de um amigo, um vizinho ou qualquer um aparecer perguntando por que eu faltei o treino de futebol. A sucção firme da entrada da piscina me estapeia e eu esfrego meu rabo branco e magrelo nessa sensação.
Um minuto, eu tenho ar suficiente, e meu pau na mão. Meus pais no trabalho, minha irmã tem balé. Ninguém deve aparecer em casa por horas.
Minhas mãos me levam quase lá, e eu paro. Eu nado pra pegar outro fôlego. Mergulho e me ajeito no fundo.
E eu repito e repito.
Deve ser por isso que as meninas querem sentar na sua cara. A sugada é como dar um cagão que nunca pára. Com o pau duro e o rabo sendo mordido eu não preciso de ar. O coração nos meus ouvidos, eu fico no fundo até estrelas brilhantes de luz começarem a serpentear nos meus olhos. As pernas esticam, a parte de trás dos joelhos se arrastam no fundo de concreto. Meu dedos do pé vão ficando azuis, meu dedos dos pés e das mãos enrugados por ficar tanto tempo na água.
E aí eu deixo acontecer. As grandes escarradas brancas começam a jorrar. As pérolas.
É aí que eu preciso de um pouco de ar. Mas quando vou pegar impulso no fundo, eu não consigo. Não consigo botar os pés abaixo de mim. Meu cu está preso.
Os para-médicos lhe dirão que por ano, cerca de 150 pessoas ficam presas deste jeito, sugadas por uma bomba de circulação. Se o seu cabelo longo ficar preso, ou o seu rabo, você vai se afogar. Todo ano acontece com toneladas de gente. A maioria na Flórida.
As pessoas simplesmente não falam disso. Nem os franceses falam sobre TUDO.
Levanto um joelho, enfio um pé abaixo de mim, fico meio em pé quando sinto o solavanco na minha bunda. Com o outro pé abaixo de mim, eu pego impulso no fundo. Tô me livrando, já sem pegar no concreto, mas também sem alcançar o ar.
Continuo chutando a água, me debatendo com os dois braços, devo estar a meio caminho da superfície, mas sem subir mais nem um palmo. O coração batendo mais alto e rápido na minha cabeça.
Os lampejos de luz cruzando e atravessando os meus olhos, eu me viro pra trás e vejo... mas não faz sentido. Aquela corda grossa, algum tipo de cobra azul-esbranquiçada e entrançada, cheia de veias, saiu do dreno da piscina e tá presa no meu rabo. Algumas das veias vazam sangue, sangue vermelho que em baixo d’água parece preto e se esvai por pequenos cortes na pele pálida da cobra. O sangue faz uma trilha, desaparecendo na água, e por dentro da pele fina e azul-esbranquiçada da cobra dá pra ver pedaços de alguma refeição meio-digerida.
É o único jeito disso fazer sentido. Algum terrível monstro marinho, uma serpente do mar, algo que nunca viu a luz do dia, escondida no fundo escuro do dreno da piscina, esperando para me devorar.
Então… eu a chuto, na pele lisa e borrachuda cheia de nódoas e veias. Parece sair mais dela do dreno. Já deve estar do tamanho da minha perna, mas ainda segura firme no meu cu. Com outro chute eu fico alguns centímetros mais perto de tomar outro fôlego. Ainda sentindo a cobra rebocada no meu rabo, tô alguns centímetros mais perto da fuga.
Grudado na parte de dentro da serpente, dá pra ver milho e amendoins. Dá pra ver uma longa bola laranja-clara. É o tipo de vitamina pra cavalo em pílulas que meu pai me faz tomar, pra ajudar a ganhar peso. Pra conseguir uma bolsa de estudos como jogador de futebol. Com ferro extra e ácidos enriquecidos com ômega três.
Tida como a pílula que salva a minha vida.
Não é uma cobra, é meu intestino grosso, meu cólon cuspido pra fora. O que os médicos chamam de prolapso. São as minhas tripas sugadas pro dreno.
Os para-médicos lhe dirão que a bomba de uma piscina suga 80 galões de água por minuto. Isso dá algo em torno de 200 quilos de pressão. O grande problema é que, por dentro, nós somos todos conectados. Seu rabo é só a outra extremidade da sua boca. Se eu deixar, a bomba continua trabalhando – desvelando minhas entranhas – até pegar a minha língua. Imagine dar uma cagada de 200 quilos e você vai conseguir ver como dá pra te virar do avesso.
O que posso dizer é que as tripas não sentem muita dor. Não do jeito que sua pele sente dor. O que você estiver digerindo, os médicos chamam de bolo fecal. Antes disso é quimo, bolsões de uma baba rala recheada de milho e amendoins e feijõezinhos redondos.
É essa sopa de sangue e milho, merda e esperma e amendoins flutuando à minha volta. Mesmo com as minhas tripas se desenrolando pelo meu cu e eu me agarrando ao que resta, mesmo assim meu primeiro desejo é de alguma maneira conseguir vestir meu calção de banho.
Deus proíbe que meus pais vejam o meu pau.
Uma das minhas mão segura com força em torno no meu rabo, a outra busca meu calção de banho de listras amarelas e desfaz o nó do meu pescoço. Ainda assim, é impossível entrar nele.
Quer sentir teus intestinos. Compre um pacote daquelas camisinhas de pele de carneiro. Tire uma e desenrole. Encha de pasta de amendoim. Besunte com vaselina e fique segurando embaixo d’água. Daí tente rasgá-la. Tente partir ao meio. É muito forte e borrachuda. É tão lisa que não dá pra segurar.
Uma camisinha de pele de carneiro não passa de intestino velho.
Dá pra ver contra o que tô brigando.
Você solta por um segundo e fica eviscerado.
Você nada pra superfície, pra tomar ar, e fica eviscerado.
Você não nada e se afoga.
É uma escolha entre morrer agora ou daqui há um minuto.
O que os meus pais vão achar depois do trabalho é um enorme feto nu, enrolado nele mesmo. Flutuando na água turva da piscina do quintal deles. Ancorado ao fundo por uma corda grossa de veias e tripas retorcidas. O oposto de um garoto se pendurando até morrer enquanto bate uma. Este é o bebê que eles trouxeram do hospital pra casa faz treze anos. Tá aqui o rapaz que eles esperavam que levasse uma bolsa de jogador de futebol e tivesse um MBA. Que cuidaria deles na velhice. Eis todos os seus sonhos e esperanças. Flutuando na piscina, nu e morto. Em volta dele, enormes pérolas leitosas de esperma desperdiçado.
É isso ou os meus pais vão me achar enrolado a uma toalha ensangüentada, desmaiado no meio do caminho entre a piscina e o telefone da cozinha, os restos rasgados e esfarrapados das minhas tripas ainda pendurados na perna o meu calção de banho de listras amarelas.
O que nem os franceses falam a respeito.
Aquele irmão mais velho da marinha nos ensinou uma outra boa expressão. Essa em russo. Como a gente diz “Eu preciso disso como preciso dum buraco na cabeça...” os russos dizem: “Eu preciso disso como eu preciso de dentes no meu cu...”
Mne eto nado kak zuby v zadnitse

Aquelas histórias de como animais pegos em armadilhas vão acabar mastigando a própria perna... bem... qualquer coiote lhe diria que é mil vezes melhor que morrer.
Porra… mesmo se você for russo, um dia você pode acabar querendo aqueles dentes.
Se não, o que você tem que fazer é — você tem que rodopiar. Você engancha um cotovelo por trás de seu joelho e puxa essa perna pro seu rosto. Você dá dentadas no seu próprio rabo. É só ficar sem ar pra você mastigar qualquer coisa por aquele próximo fôlego.
Não é alguma coisa que você vai querer contra pruma garota no primeiro encontro. Não se você espera um beijo de boa noite.
E se eu te dissesse o gosto, você nunca, mais nunca mesmo ia comer calamari.
É difícil dizer o que deixou maus pais mais enojados: como eu me encrenquei ou como saí da encrenca. Depois do hospital, minha mãe disse “Você não sabia o que estava fazendo, bebê. Você estava em choque.” E ela aprendeu a fazer ovos escalfados.
Esse povo todo enojado ou com pena de mim…
Eu preciso disso como preciso de dentes no meu rabo.
Hoje em dia as pessoas sempre me dizem que eu pareço magrelo demais. As pessoas em jantares ficam todas quietas e putas da vida quando eu não como o assado de panela que eles fizeram. Assado de panela me mata. Presunto assado. Qualquer coisa que fique nas minhas entranhas por mais que algumas horas acaba saindo ainda comestível. Feijões de lima feitos em casa ou pedaços leves de atum, eu vou levantar e achar tudo inteirinho no sanitário.
Depois de você passar por uma ressecção intestinal radical, você não digere carne tão bem. A maioria das pessoas têm 1 metro e meio de intestino grosso. Eu tenho sorte de ter meus 15 centímetros. Daí que eu nunca consegui minha bolsa de jogador de futebol. Nunca fiz um MBA. Meus dois amigos, o da cera e o da cenoura, cresceram, ficaram adultos, mais eu nunca ganhei nem um quilo a mais do que eu já tinha naquele dia quando eu tinha treze anos.
Outro grande problema é que os meus pais pagaram uma nota preta naquela piscina. No final meu pai só falou pro cara da piscina que tinha sido um cachorro. O cachorro da família caiu e se afogou. O cadáver foi puxado pra bomba. Mesmo quando cara da piscina quebrou pra abrir a caixa do filtro e pescou um tubo emborrachado, um novelo aguado de intestino com uma pílula laranja enorme dentro, mesmo assim, meu pai só falou, “aquele cachorro era um maluco de merda.”
Até da janela do meu quarto no segundo andar dava pra ouvir o meu pai dizer, “não dava pra deixar o cachorro sozinho um segundo...”
Aí a regra da minha irmã não veio.
Mesmo depois que eles mudaram a água da piscina, depois deles venderem a casa e da gente se mudar pra outro estado, depois do aborto da minha irmã, mesmo assim meus pais nunca mencionaram o ocorrido.
Nunca.
Essa é a nossa cenoura invisível.
Você. Agora você pode dar uma boa e profunda respirada.
Eu ainda não dei.

Fim.

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