quarta-feira, 28 de março de 2012

A incrível e quase inacreditável história do defunto que morreu duas vezes

Estava lá, em todos os jornais, no dia 06 de fevereiro daquele ano “CASAL MORRE EM DESASTRE DE AUTOMÓVEL”. Os protagonistas eram o casal Hélio e Eliza Gondinho, que, numa viagem de férias, acabaram com o Monza enfiado em uma jaboticabeira na BR 116, próximo à cidade de Jequitibá, estado de São Paulo.
A viagem teve início três dias antes, quando Eliza saiu ao volante com o marido no banco do carona, do bairro do Ipase, em São Luís do Maranhão. Funcionários da estiva daquela cidade confirmaram a passagem do casal e só estranharam o fato de ser a mulher que dirigia.
Alguns jornais mostraram fotos do sítio fúnebre e em poucos havia uma outra enviada pela família, na qual o casal aparecia sorridente em sua festa de casamento, dezesseis anos atrás.
O enterro se deu sem grande alarde. Os caixões foram fechados no Cemitério do limoeiro, bairro onde Hélio nasceu e viveu até mudar pro Maranhão e lá, casar-se.
O carro foi parar no ferro-velho.
...
Na manhã do dia 03 de fevereiro, isso não saiu nos jornais, o senhor Hélio Gondinho sofreu um enfarto fulminante ao saber que seu time do coração, o Sampaio Correia, ficaria sem o principal atacante: Márcio dos Santos Athaíde, mais conhecido como Marcinho Chibata. Por conta de entreveros contratuais, Chibata estaria se transferindo para o Moto Clube, rival histórico do tricolor boliviano. Foi um golpe terrível para o senhor Gondinho, que na mesma hora deixou cair o rádio de pilhas, já parte de sua anatomia e, sem chamar a ninguém, bateu as botas.
A esta altura, dona Eliza (uma natural contração de Nelizamêire, seu nome de batismo), estava no botequim da esquina tomando as últimas providências para a partida. Quando chegou em casa e ouviu o rádio fora do ar, soube que havia algo errado.
Havia um motivo muito especial para que Hélio e Nelizamêire Gondinho desejassem fazer a tal viagem. Foi neste mesmo trecho (São Paulo-São Luís) que se conheceram. Agora o fariam no sentido contrário em seu próprio carro.
Foi tudo muito breve: começaram a paquerar já no embarque e as primeiras bolinagens ocorreram ali mesmo, nas poltronas 23 e 24 do ônibus, enquanto todos dormiam. Chegando a São Luís, casaram-se e foram dezesseis anos sem que Hélio voltasse à sua terra-mãe, sonho que realizaria agora.

Nelizamêire não se fez de rogada, sabia como era burocrático e caro o envio de um defunto para outro estado, então, como planejado, pôs o marido no carro e partiu naquela mesma noite. Seu plano era fazer o trajeto com o marido e, chegando lá, devolvê-lo à família. Nada mais justo.
Alguns guardas da cidade de Timon, ainda no Maranhão, estranharam o ar condicionado muito forte no carro e o sono pordemais silencioso para um sujeito tão gordo.
É comentado na vizinhança que o casal Gondinho já não se dava tão bem quanto nos primeiros anos. As gritarias de eterno cio estavam sendo substituídas por discussões esparsas, mas cada vez mais violentas. Certa feita, disse uma vizinha que preferiu o anonimato, o senhor Gondinho chegou a agredir a mulher fisicamente, e em outra ocasião, quebrou o conjunto de xícaras Duralex da esposa, o que só se resolveu quando presenteou-a com outro no natal.
Dona Eliza adorava o cantor Amado Batista, enquanto o marido preferia Roberto Carlos. Segundo as testemunhas do acidente ocorrido no dia 06, depois de todo o estrondo, só o que se pôde ouvir foi a voz do preferido da mulher ecoando no último volume. Sendo esta a única mídia fonográfica encontrada pelos peritos na cena, concluiu-se que tenha sido executada exaustivamente durante o percurso.
Já na Bahia, os guardas pensaram ser o senhor Gondinho um daqueles bonecos infláveis que algumas mulheres têm consigo para evitar assaltos, já que a cor da pele do passageiro estava, àquela altura, embranquecida e seus olhos a meio mastro.

A polícia luta para elucidar a possível causa do sinistro. Os pneus do carro estavam novos, fazia bom tempo e nenhuma curva acentuada havia em vários quilômetros. Vizinhos especularam que o motivo foi certamente uma das intermináveis discussões do casal, que levou a sempre atenta senhora Nelizamêire Gondinho a perder o rumo do volante e chocar-se contra a jaboticabeira; outros alegam suicídio por parte da mesma, que preferia morrer a ver a família do esposo. O fato mais estranho observado pelos peritos foi que o corpo do senhor Hélio Gondinho, da hora que foi encontrado “E provavelmente até agora”, pilheriou um coveiro, tinha um falo ensandecido e ameaçadoramente ereto.

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