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| Capa de O ano do Bumerangue |
“Da última vez que estive em um congresso na Suécia ainda chamavam nossa capital de Morristown.”
Foi nessa frase que percebi que o Diego Gerlach é um cara que fala sério e que o que ele apresentava como “uma história não autorizada do Fantasma” poderia ter um pouco mais por trás da fachada fácil da pirataria.
O ano do Bumerangue, que ele lançou durante a RioComicCon, é de fato um gibi com uma história do Espírito que Anda, ou sobre a morte dele ou sua sucessão, isso mesmo as releituras não me esclarecerão. Mas pouco importa. Pra mim, A.D.B. passou como uma história sobre posse e pertencimento. Como essas noções me excitam, decidi me manifestar.
Mas antes, um passinho pra trás:
O movimento antropofágico pregava com a máxima do “só me interessa o que não é meu”, a intenção de romper com um tanto de tacanhices canônicas e encontrar um tipo de literatura que fosse brasileira e que servisse ao Brasil, um tipo de produção que nos libertasse das influências verticais dos colonizadores e criasse um terreno de produção e consumo que fosse nosso, fruto de nossas misturas e formas próprias de fazer. Para isso, conviria deglutir o outro, mastigar o outro e cuspi-lo com o que dele conviesse em uma coisa terceira que era a produção antropofágica em si. Conseguem deixar isso chato no colégio.
Essas teorias vestavam junto com uma idéia maluca de tentar descobrir a identidade do brasileiro, de tentar sacar quem era o povo daqui, quais suas especificidades, peculiaridades e o que poderia nos unir como uma nação soberana patati-patatá. Não é à toa que uma geração (ou várias) de intectuais colocou a viola no saco e foi buscar essa brasilidade no folclore, na malandragem, na macumba etc etc etc
Na minha perspectiva, a grande questão de pensar nisso (e vai que é foda ficar falando dum troço dos anos 20) é a necessidade da existência do outro, ao menos o admitir que esse outro existe. Eu só roubo, só engulo se tiver um objeto lá do outro lado pra isso.
Passinho pra frente.
Morristown é uma cidade colonizada, pós-colonizada, atacada por um surto grafomânico (em outras palavras, um surto de criatividade coletiva) que leva a população a desenhar símbolos nas paredes; com a aproximação de um eclipse e um empesteio de doença do sono, o país ainda amarga um embargo internacional sofrido por conta de sua associação ao Fantasma (por coincidência um vigilante branco, que muitos acusam de colonialista).
Por mais que O ano do Bumerangue seja uma HQ do Fantasma, não tenho como lê-la como um gibi feito em outro contexto que não o atual e ela acaba me soando como tudo menos isso (o que não é nenhum demérito). Parece o trabalho de um autor obcecado por uma idéia e cheio de romantismo que decide colocar no papel não a referência, a cópia do traço estático, quase carimbado de Ray Moore ou as acrobacias do personagem dos gibis. O ano do Bumerangue ignora a existência do Fantasma e antes de engoli-lo metodicamente, despingando os is, pinga as testas dos personagens com suor de desconforto de uma África supostamente real e também inexistente; há calor e suburbanidade e um herói que surge da memória de menino do desenhista em confronto com o criador absorvido por dezenas de outras influências.
o que não é meu”, impera aqui um “tudo que me coloniza me pertence”, a lógica, da qual compartilho, que coloca um "objeto cultural" (termo escroto) avidamente consumido na mesma prateleira da lazanha da mamãe. Vale tanto para Bangalla quanto para o fantástico gibi do Diego Gerlach.
O Ano do Bumerangue custa 10 barão e pode ser comprado diretamente com o autor aqui www.flickr.com/photos/diegogerlach/

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