Começo a gritar na ponta da fila. Me jogo no chão. Digo que ela tá me discriminando:
Por ser velho,
Por ser barrigudo,
Por ser meio preto,
Por ter cara de bicha,
Por não ter obturado o pré-molar e usar chapa,
Por parecer com o Tony Ramos, de quem ela não gosta por ter explodido aquele shopping,
Por ter de depender do benefício, que ela não quer me dar porque eu, de mal, não trouxe o documento com as quatro cópias autenticadas com assinatura da minha finada avó analfabeta
Porque me recuso a dar duas voltinhas, três pulinhos e bater quatro palminhas, que é o protocolo geral de atendimento em qualquer repartição.
Ela se enerva e pede pro segurança me tirar da fila. Eles me tiram no arraste. Esbravejo e olho pra ela. Choro e a gente se compadece, olham pra ela de cara feia. Volto pra fila e digo que ela vai ser processada por discriminação. E repito a lista e ela esfrega os pés no chão, de aflita, que pelo emprego não teme, mas teme o noticiário.
Lembro do pobre do Carlos Zéfiro. De como era outro tempo, ou de como ele era noiado.
Aí descubro que trouxe o papel assinado pela minha vozinha, que escrevia bem e morreu cega. E pergunto se posso dar a volta e abraçá-la, o que faço e a constrange, mas na câmara íntima do carinho, chamo ela de vaca.
Faço isso por 10 anos, duas vezes por semana.
Quem não tem trezoitão, caça com úlcera.
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