quarta-feira, 28 de março de 2012

Quatro Textos

01
Ela perguntou e respondi na lata
Não sei.
Mas sabia. Não sei era pra ganhar tempo. Algo espocava lá fora, não dava pra ver pela janela, mas eu sabia. Disse que não pra ganhar tempo.
Vamos sair. Eu quero ver o que foi aquilo.
Se você aprende a olhar fixamente prum único ponto enquanto faz várias outras coisas, como falar com as pessoas, elas acabam ficando com medo de você depois e vão te deixando em paz.
Nem sempre funciona.
E agora eu tava com o pau mole nas mãos, todo sujo.
Ela disse que não queria sair.
Eu disse que nem queria ter vindo, que ela tinha entendido errado.
Ela tava certa, era a hora de pegar as coisas e ir embora zangada.
Só que a desgraçada disse: tá bom, vamo lá, vamo ver o que foi aquilo, mas na volta você vai conseguir me comer direito, não vai?

02
Enquanto derrubava o gelo que tinha virado água no chão, pela torneirinha pregada na caixa de isopor, o velho sentia o frio respingando no pé e achava aquilo bom pra caralho. Era a melhor parte: o frio parecia subir pela perna e ir contaminando o corpo inteiro, dando ao velhinho a ilusão de virar um enorme urso negro, peludo e ameaçador. Não usava sapatos, mas uma alpercata de couro, a calça dobrada e dobrada.
Fecha a torneira, bota a caixa do ombro, mais leve.

03
Era um esporte novo. Novíssimo, mas naquele dia não rolava.
De um lado a outro dava menos de 100 metros. Pela medida deles, pouco mais de três carros emparelhados. A emoção era chegar do outro lado da ponte mais rápido, sem olhar pros lados, sem olhar pra baixo.
Só pra frente, pra frete.
Pula.
Corre. Pula.
Um dia desses um carinha se empolgou tanto que caiu no rio. A maré tava seca. Se fodeu.
Com a ponte engarrafada não tinha graça. Plano B.

04
— Qual teu nome?
— E o teu, qual é?
— Jairo.
— Jairo? Ih, ai não dá. Jaira é muito feio. Tem problema se mudar?
— Eu gosto de Jaira.
— Mas eu não. Num consigo nem falar.
— Eu pago legal.
— Com esse nome não dá! Alem do mais, vai ter que esperar o show acabar.
— Peraí. Meu nome foi mamãe que me deu! Eu não posso jogar fora um negócio que mamãe me deu por causa de uma puta.
— Quem perguntou foi tu.
— ...
— Dá pra ser sem nome?
— Aí eu te chamo de quê?
— Sei lá... o nome da tua mãe, qual é?

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